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O Papa Bento XVI critica o Islã

por Daniel Pipes
New York Sun
19 de Setembro de 2006

Original em inglês: Pope Benedict Criticizes Islam
Tradução: Márcia Leal

"Mostre-me então o que Maomé trouxe de novo, e ali encontrará apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de difundir pela espada a fé que pregava".

Tais palavras, pronunciadas há seis séculos por um imperador bizantino, Manuel II Paleólogo, em diálogo mantido com um estudioso iraniano, provocam três reflexões.

Papa Bento XVI

Sem endossar ou rejeitar, o papa Bento XVI citou a frase do imperador no discurso em alemão, Fé, Razão e a Universidade: Memórias e Reflexões, que proferiu na Alemanha na semana passada. A frase serviu de introdução à sua erudita crítica do conceito ocidental de razão a partir do Iluminismo.

Mas teriam sido outras as suas intenções? O abade primaz da ordem beneditina, Notker Wolf, entendeu a citação do papa como "uma alusão inequívoca a [o presidente do Irã, Mahmoud] Ahmadinejad". Pessoas do próprio Vaticano disseram ao Sunday Times de Londres que Bento XVI "tentou antecipar-se a uma carta agressiva dirigida ao papado pelo presidente do Irã, sendo esse o motivo de ter mencionado o debate com um persa".

Primeira reflexão: Bento XVI fez comentários elusivos, afirmações breves, e agora essa citação délfica, mas falta aquela tão necessária declaração mais significativa sobre um tema vital como o Islã. Esperemos que ela venha sem demora.

Quaisquer que tenham sido as intenções do papa, ele causou um furor quase previsível no mundo islâmico. Por toda parte autoridades políticas e religiosas condenaram o discurso, algumas clamando por violência.

  • No Reino Unido, ao liderar uma manifestação nos arredores de Westminster, Anjem Choudary, do Al-Ghurabaa, exigiu que o papa seja "condenado à pena capital".
  • No Iraque, o Exército dos Mujahidin ameaçou "esmagar as cruzes da casa do cão de Roma" e outros grupos lançaram ameaças de enregelar o sangue.
  • No Kuwait, um website importante exigiu punição severa para os católicos.
  • Na Somália, o líder religioso Abubukar Hassan Malin exortou os muçulmanos a "caçarem" o papa e matá-lo "na hora".
  • Na Índia, um imã de grande prestígio, Syed Ahmed Bukhari, pediu aos muçulmanos que "respondam de maneira tal que o papa seja forçado a se desculpar".
  • Um alto membro da Al-Qaeda anunciou que "a infidelidade e a tirania do papa só serão detidas com um grande ataque".

O Vaticano reagiu criando um cordão de segurança fora do comum em redor do pontífice. Longe da Santa Sé, o repto produziu alguns atos de violência, e a expectativa é de que outros aconteçam. Sete igrejas foram atacadas na Margem Ocidental e em Gaza, uma em Basra, no Iraque (levando o blog "RedState" a publicar um título irônico: "Papa sugere que o Islã é uma religião violenta...Muçulmanos explodem igrejas"). Os assassinatos de uma freira italiana na Somália e de dois assírios no Iraque parecem igualmente ligados ao discurso.

Segunda reflexão: a atual onda de protestos, violência e homicídios assume caráter de rotina. Houve manifestações semelhantes em 1989 (em reação ao romance de Salman Rushdie, Os Versos Satânicos), em 1997 (quando a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu contra a demolição de uma escultura de Maomé), em 2002 (quando Jerry Falwell chamou Maomé de terrorista), 2005 (o fraudulento episódio dos exemplares do Alcorão que teriam sido jogados em vasos sanitários), e em fevereiro de 2006 (o incidente da caricatura dinamarquesa).

Dirigentes do Vaticano tentaram amenizar a citação do papa, bem como sua condenação da jihad (guerra santa). O porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, S.J., afirmou que Bento XVI não quis dar "a interpretação de que o Islã é violento. (...) dentro do Islã há muitas posições diferentes e muitas delas não são violentas". O cardeal Tarcísio Bertone, secretário de Estado, declarou que o papa "lamenta sinceramente que certas passagens de seu discurso tenham soado ofensivas à sensibilidade dos crentes muçulmanos".

Então, em um gesto talvez sem precedentes para um pontífice, Bento XVI apresentou pessoalmente as meias-desculpas típicas dos que notam uma elevação da temperatura. Diz a tradução oficial do Vaticano para o inglês: "Estou profundamente desgostoso pelas reações em alguns países a uma pequena passagem do meu discurso, considerada ofensiva à sensibilidade dos muçulmanos. Trata-se, na verdade, da citação de um texto medieval, que não exprime em absoluto o meu próprio pensamento."

No original italiano, porém, Bento XVI diz simplesmente sono rammaricato, que significa "estou desapontado" ou "estou triste".

Terceira reflexão: os tumultos muçulmanos têm um objetivo: impedir que os cristãos façam críticas ao Islã e com isso impor ao Ocidente as normas da sharia. Se os ocidentais aceitarem este ponto fundamental da lei islâmica, mais exigências serão feitas depois. Assegurar a liberdade de expressão, portanto, constitui medida essencial contra a imposição de uma ordem islâmica.