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Um americano pode fazer comentários sobre Israel?

por Daniel Pipes
Jerusalem Post
28 de Julho de 2008

Original em inglês: May an American Comment on Israel?
Tradução: Joseph Skilnik

Posso eu, um cidadão americano, que reside nos Estados Unidos, fazer comentários publicamente a respeito de decisões tomadas pelos israelenses?

Yoram Schweitzer quer que eu não julgue decisões feitas pelo governo israelense.

Eu critiquei recentemente o governo israelense pela sua barganha com o Hisbolá em "Samir Kuntar e Quem Ri por Último" (The Jerusalem Post, 21 de julho); acerca disto, o eminente perito em contra-terrorismo da Universidade de Tel-Aviv, Yoram Schweitzer questionou a conveniência da exposição de minhas visões sobre este assunto. Em "Uma Transação Não Tão Má Assim" (24 de julho) ele explicou aos leitores do Jerusalem Post , como o "conteúdo e tom" da minha análise "denegrindo e insultando, negligenciando o fato de que o governo e público têm o direito de decidir por eles mesmos…, e pagar o preço resultante". Ele também me critica por apresentar opiniões sobre assuntos israelenses do meu "porto seguro a milhares de milhas de distância".

Schweitzer não explica a lógica por detrás de seu ressentimento, mas soa familiar: A não ser que uma pessoa viva em Israel, segue o argumento, pague seus impostos, coloque sua vida em risco nas ruas e tenha filhos em suas forças armadas, ela não deveria criticar suas decisões depois de tomar ciência de suas conseqüências. Esta abordagem, em termos gerais, está por detrás das posições tomadas pelo Comitê Americano-Israelense de Assuntos Públicos e outras importantes instituições judaicas.

Eu respeito esta posição sem aceitar sua disciplina. Responder ao que governos estrangeiros fazem é o feijão com arroz do meu trabalho como analista de política externa dos Estados Unidos, que passou muito tempo nos departamentos de Estado e de Defesa e como membro da comissão de diretores do Instituto dos Estados Unidos para a Paz e como colunista tem se alijado de opiniões durante quase uma década. Uma rápida revisão bibliográfica me verá julgando muitos governos, inclusive o britânico, o canadense, o dinamarquês, o francês, o alemão, o iraniano, o nepalês, o saudita, o sul coreano, o sírio, e o turco.

Obviamente, eu não tenho filhos servindo nas forças armadas de todos estes países, mas eu avalio o desenrolar de seus acontecimentos a fim de ajudar a orientar a reflexão de meus leitores. Ninguém destes países, vale a pena observar, nunca me pediu que eu me eximisse de comentar sobre seus assuntos internos. E o próprio Schweitzer dá conselho a outros; por exemplo, em julho de 2005, ele instruiu os líderes muçulmanos na Europa a serem "mais persuasivos na sua rejeição do elemento islâmico radical". Todos os analistas independentes fazem isto.

Assim sendo, Schweitzer e eu podemos fazer comentários sobre o desenrolar dos acontecimentos ao redor do mundo, mas quando se trata de Israel, minha mente deveria ficar vazia de pensamentos, minha língua se calar e meu teclado ficar imóvel? Complicado.

Num nível mais aprofundado, eu protesto contra todo conceito de informação privilegiada – de que a localização, a idade, a etnia, o grau acadêmico, a experiência de alguém ou qualquer outra qualidade possa validá-la. O recente livro de Christopher Cerf e Victor S. Navasky intitulado Eu Desejaria não Ter Dito isso: Os Especialistas Falam - e Entendem Mal! notavelmente humoriza e expõe esta prepotência. Residir em um país não significa necessariamente ser mais entendido a seu respeito.

Ehud Barak, o soldado mais altamente condecorado da história israelense, cometeu erros.

Durante a cúpula de negociações de Camp David II de 2000, quando Ehud Barak liderava o governo de Israel e eu discordava de sua política, mais de uma vez, minha crítica foi contestada com a indignação de como-você-ousa: "Barak o soldado mais condecorado da história israelense – e quem é você"? Contudo, agora os analistas em geral concordam que Camp David II trouxe resultados desastrosos para Israel, precipitando a violência palestina que começou dois meses depois.

É um erro rejeitar informações, idéias ou análises com base em credenciais. Pensamentos corretos e importantes podem vir de qualquer proveniência – até mesmo de milhares de milhas de distância.

Neste espírito, aqui estão duas respostas relativas ao incidente sobre a abordagem de Schweitzer a respeito de Samir al-Kuntar. Schweitzer argumenta: "não fazer o máximo para salvar qualquer cidadão ou soldado que caia em mãos inimigas quebraria um dos preceitos básicos da sociedade israelense". Eu concordo que salvar soldados ou os seus restos mortais continua sendo uma prioridade operacional benéfica e moralmente nobre, mas "máxima" tem seus limites. Por exemplo, um governo não deveria entregar cidadãos vivos a terroristas em troca de corpos de soldados do exército. De certa forma, as ações da semana passada do governo Olmert foram longe demais.

Mais especificamente: As alegações de Schweitzer de que, "falando de forma relativa, a recente troca com o Hisbolá veio a um preço baixo. É discutível se a liberação de Kuntar concedeu alguma vitória moral ao Hisbolá". Se essa transação foi barata, eu temo imaginar como seria a cara. E com a chegada de Kuntar ao Líbano fechando os órgãos governamentais numa vertiginosa celebração nacional, negar a vitória ao Hisbolá chega a ser uma deliberada cegueira.

Categoria do Artigo:: Debate nos EUA sobre o conflito árabe-israelense, Textos autobiográficos de Daniel Pipes